O
atletismo brasileiro vive de exemplos
O
atletismo brasileiro vive de exemplos, de heróis
que surgem da mais absoluta pobreza, sem acesso
a instrumentos básicos da cidadania como
ensino, alimentação, saúde,
emprego...
Aqui,
na FPA, podemos citar o de Adhemar Ferreira da
Silva. Oriundo de família humilde, buscou
progredir na vida através do atletismo,
na prova do salto triplo. Saiu da orfandade de
condições de integração
social, econômica e técnica para
subir duas vezes no lugar mais alto do pódio
nas Olimpíadas de Helsinque (1952) e Melbourne
(1956). A FPA, aliás, luta na Câmara
dos Vereadores para que a Avenida Casa Verde (localizada
no bairro onde Adhemar viveu), passe a se chamar
avenida Adhemar Ferreira da Silva. A solicitação
está tramitando. Mas faz tempo...
Outro
triplista que surgiu como que por combustão
espontânea foi João Carlos de Oliveira,
o “João do Pulo”. Seu recorde
mundial obtido no México (17.89), durou
perto de uma década para ser batido. Entre
os atletas de sua geração, é
muito comum se dizer que João foi um dos
maiores potenciais atléticos da história.
Apenas não treinava o suficiente, trazendo
em sua trajetória de vida as marcas de
uma dura infância.
E
o que dizer de Nélson Prudêncio?
Foi outro triplista fabuloso, medalhista olímpico
e recordista mundial que, ainda hoje, está
engajado na luta para melhor desenvolvimento do
desporto, em especial, o atletismo.
A
verdade é que o Brasil, apesar de nunca
ter tido uma política de esporte, é
uma verdadeira máquina de criar grandes
potências no esporte. E mais: seu povo é
heterogêneo. O brasileiro tem condições
de desenvolver – e bem – qualquer
prova de atletismo. Não é como certos
países, como o Quênia, cujo biótipo
é talhado para corridas de fundo.
Mesmo
com todas as dificuldades, o atletismo é
uma das modalidades que mais trouxe medalhas olímpicas
para o Brasil. E que ninguém tenha dúvidas:
com investimento adequado, como foi feito pela
Austrália e África do Sul nos anos
90, nosso País tem plena aptidão
para freqüentar o ranking dos melhores atletas
do mundo.
Pode-se
citar vários exemplos em que a vontade,
o talento e a determinação suplantaram
as dificuldades e até a indiferença,
cruel. José João da Silva, bicampeão
da São Silvestre, é um. João
da Mata, outro. Maria Zeferina Baldaia, outro...
Lidar
com atletismo é administrar dificuldades,
mas, também, participar da saga de grandes
vencedores.
Importante
salientar que investir no esporte é melhorar
as condições de saúde, de
educação, além de proporcionar
integração social. Todo mundo sabe.
Menos o sistema. Mas, como sempre, o brasileiro
luta por si. Basta ver o número crescente
de participantes de corrida de rua.
Falando
nisso, gostaríamos de ressaltar o evento
denominado “Corrida dos Idosos”, recém
realizado no Ibirapuera, em São Paulo.
Segundo nosso eterno árbitro – e
profundo conhecedor da evolução
do atletismo no Brasil – Osvaldo Pizani,
de 88 anos, que foi trabalhar no acontecimento,
“raras vezes se viu algo tão emocionante,
desde o bom número de participação
até a forma solidária e a alegria
dos atletas da Melhor Idade. A vitória
era o que menos preocupava. O principal era mesmo
participar e incentivar o próximo a praticar
esporte e levar uma vida mais saudável
e melhor”.
Pizani
vai virar gaúcho!
Aos
88 anos de idade, Osvaldo Pizani, lendária
figura do atletismo paulista e brasileiro, decidiu
começar uma vida nova.
De
mala, cuia e chimarrão, vai para o Rio
Grande do Sul ajudar sua família –
filha, netos e bisnetos – e dar início
a um projeto literário sobre técnicas
de atletismo e seus equipamentos, especialmente
no tocante a pista.
Pizani
deve mergulhar por uns cinco anos em sua vasta
biblioteca sobre a modalidade, tentando fazer
um elo preciso entre o passado, o presente e o
futuro.
Das
obras literárias de sua propriedade, muitas
são em inglês, francês, espanhol
e italiano. Línguas, aliás, que
o árbitro número 0001 da CBAt entende
ou fala com fluência.
Do
Pizani do atletismo, muitas gerações
sabem. Mas que ele passou 30 anos de sua vida
no teatro, nem todos.
“Foram
anos intensos. Duraram até 1969. Montava
peças e também atuava. Cheguei a
levar para os palcos dramaturgos como Luigi Pirandello,
Molière, Shakespeare e Giuseppe Verdi”.
Isso mesmo. Verdi. Nosso Pizani chegou a montar
ópera no Municipal de São Paulo.
“Saí
do Teatro porque a miséria era muita. Até
hoje é assim. Mas, quem pisa num palco,
fica escravo do palco. Não sabe mais viver
qualquer outra forma de vida diferente. Trata-se
de um trabalho de estiva”.
Estiva.
Porto de Santos. O maior da América Latina.
Pizani trabalhou lá por quase uma década.
No setor administrativo, de fiscalização,
recebimento e expedição de cargas.
“Quantos navios não vi aportarem,
majestosos. Vinham de todos os lugares do mundo,
trazendo comércio, trazendo cultura. As
cidades portuárias são fascinantes
pelo intercâmbio que possibilitam com as
histórias do além mar...”
Jogou
futebol, nosso Osvaldo. Numa época diferente,
onde o esporte não era tão competitivo,
mas recreativo e, lógico, de desenvolvimento
atlético. “Hoje, não posso
tolerar esse profissionalismo sujeito a desconfianças...”
No
atletismo, começou como atleta. Era fundista.
Lembra dos grandes treinos dos domingos. De Ivo
Salowicz que, sem a tecnologia dos materiais de
hoje e, também dos equipamentos, fazia
100 metros rasos em 10s3.
Em
meados da década de 60, começou
a militar como árbitro, consultor e dirigente.
“Vou
para Bento Gonçalves. Sempre que possível
volto para rever os amigos. Lá, pode ser
até que continue nas pistas. Sou árbitro.
Creio que posso ser de alguma utilidade...”.
Sorte
da Federação Gaúcha! Pois,
na Paulista, Pizani deixa saudades e exemplos
de um homem de caráter, culto e, acima
de tudo, cultuado.
Parabéns,
Pizani!!!
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FPA.
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