BOLETIM INFORMATIVO DA
FEDERAÇÃO PAULISTA DE ATLETISMO
Edição 003 - novembro/2005
O atletismo brasileiro vive de exemplos
Pizani vai virar gaúcho

O atletismo brasileiro vive de exemplos

Toninho - Presidente da FPA O atletismo brasileiro vive de exemplos, de heróis que surgem da mais absoluta pobreza, sem acesso a instrumentos básicos da cidadania como ensino, alimentação, saúde, emprego...

Aqui, na FPA, podemos citar o de Adhemar Ferreira da Silva. Oriundo de família humilde, buscou progredir na vida através do atletismo, na prova do salto triplo. Saiu da orfandade de condições de integração social, econômica e técnica para subir duas vezes no lugar mais alto do pódio nas Olimpíadas de Helsinque (1952) e Melbourne (1956). A FPA, aliás, luta na Câmara dos Vereadores para que a Avenida Casa Verde (localizada no bairro onde Adhemar viveu), passe a se chamar avenida Adhemar Ferreira da Silva. A solicitação está tramitando. Mas faz tempo...

Outro triplista que surgiu como que por combustão espontânea foi João Carlos de Oliveira, o “João do Pulo”. Seu recorde mundial obtido no México (17.89), durou perto de uma década para ser batido. Entre os atletas de sua geração, é muito comum se dizer que João foi um dos maiores potenciais atléticos da história. Apenas não treinava o suficiente, trazendo em sua trajetória de vida as marcas de uma dura infância.

E o que dizer de Nélson Prudêncio? Foi outro triplista fabuloso, medalhista olímpico e recordista mundial que, ainda hoje, está engajado na luta para melhor desenvolvimento do desporto, em especial, o atletismo.

A verdade é que o Brasil, apesar de nunca ter tido uma política de esporte, é uma verdadeira máquina de criar grandes potências no esporte. E mais: seu povo é heterogêneo. O brasileiro tem condições de desenvolver – e bem – qualquer prova de atletismo. Não é como certos países, como o Quênia, cujo biótipo é talhado para corridas de fundo.

Mesmo com todas as dificuldades, o atletismo é uma das modalidades que mais trouxe medalhas olímpicas para o Brasil. E que ninguém tenha dúvidas: com investimento adequado, como foi feito pela Austrália e África do Sul nos anos 90, nosso País tem plena aptidão para freqüentar o ranking dos melhores atletas do mundo.

Pode-se citar vários exemplos em que a vontade, o talento e a determinação suplantaram as dificuldades e até a indiferença, cruel. José João da Silva, bicampeão da São Silvestre, é um. João da Mata, outro. Maria Zeferina Baldaia, outro...

Lidar com atletismo é administrar dificuldades, mas, também, participar da saga de grandes vencedores.

Importante salientar que investir no esporte é melhorar as condições de saúde, de educação, além de proporcionar integração social. Todo mundo sabe. Menos o sistema. Mas, como sempre, o brasileiro luta por si. Basta ver o número crescente de participantes de corrida de rua.

Falando nisso, gostaríamos de ressaltar o evento denominado “Corrida dos Idosos”, recém realizado no Ibirapuera, em São Paulo. Segundo nosso eterno árbitro – e profundo conhecedor da evolução do atletismo no Brasil – Osvaldo Pizani, de 88 anos, que foi trabalhar no acontecimento, “raras vezes se viu algo tão emocionante, desde o bom número de participação até a forma solidária e a alegria dos atletas da Melhor Idade. A vitória era o que menos preocupava. O principal era mesmo participar e incentivar o próximo a praticar esporte e levar uma vida mais saudável e melhor”.topo

Pizani vai virar gaúcho!

Osvaldo PizaniAos 88 anos de idade, Osvaldo Pizani, lendária figura do atletismo paulista e brasileiro, decidiu começar uma vida nova.

De mala, cuia e chimarrão, vai para o Rio Grande do Sul ajudar sua família – filha, netos e bisnetos – e dar início a um projeto literário sobre técnicas de atletismo e seus equipamentos, especialmente no tocante a pista.

Pizani deve mergulhar por uns cinco anos em sua vasta biblioteca sobre a modalidade, tentando fazer um elo preciso entre o passado, o presente e o futuro.

Osvaldo PizaniDas obras literárias de sua propriedade, muitas são em inglês, francês, espanhol e italiano. Línguas, aliás, que o árbitro número 0001 da CBAt entende ou fala com fluência.

Do Pizani do atletismo, muitas gerações sabem. Mas que ele passou 30 anos de sua vida no teatro, nem todos.

“Foram anos intensos. Duraram até 1969. Montava peças e também atuava. Cheguei a levar para os palcos dramaturgos como Luigi Pirandello, Molière, Shakespeare e Giuseppe Verdi”. Isso mesmo. Verdi. Nosso Pizani chegou a montar ópera no Municipal de São Paulo.

“Saí do Teatro porque a miséria era muita. Até hoje é assim. Mas, quem pisa num palco, fica escravo do palco. Não sabe mais viver qualquer outra forma de vida diferente. Trata-se de um trabalho de estiva”.

Osvaldo PizaniEstiva. Porto de Santos. O maior da América Latina. Pizani trabalhou lá por quase uma década. No setor administrativo, de fiscalização, recebimento e expedição de cargas. “Quantos navios não vi aportarem, majestosos. Vinham de todos os lugares do mundo, trazendo comércio, trazendo cultura. As cidades portuárias são fascinantes pelo intercâmbio que possibilitam com as histórias do além mar...”

Jogou futebol, nosso Osvaldo. Numa época diferente, onde o esporte não era tão competitivo, mas recreativo e, lógico, de desenvolvimento atlético. “Hoje, não posso tolerar esse profissionalismo sujeito a desconfianças...”

No atletismo, começou como atleta. Era fundista. Lembra dos grandes treinos dos domingos. De Ivo Salowicz que, sem a tecnologia dos materiais de hoje e, também dos equipamentos, fazia 100 metros rasos em 10s3.

Em meados da década de 60, começou a militar como árbitro, consultor e dirigente. Osvaldo Pizani

“Vou para Bento Gonçalves. Sempre que possível volto para rever os amigos. Lá, pode ser até que continue nas pistas. Sou árbitro. Creio que posso ser de alguma utilidade...”.

Sorte da Federação Gaúcha! Pois, na Paulista, Pizani deixa saudades e exemplos de um homem de caráter, culto e, acima de tudo, cultuado.

Parabéns, Pizani!!!topo

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