BOLETIM INFORMATIVO DA
FEDERAÇÃO PAULISTA DE ATLETISMO
Edição 009 - julho/2006
Pinceladas precisas:
IBGE desenha o dramático quadro do desporto brasileiro!

Dados estatísticos divulgados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - disparam a cor amarela antecedendo a vermelha no farol da evolução do desporto brasileiro, em especial nos estados da União.

A “Pesquisa de Esporte 2003 – Governo do Estado”, última em referência, aponta para o que todos nós, que militam no esporte, em especial o atletismo, sofremos na carne dia após dia.

Ou seja, a abnegação de alguns continua, historicamente, tentando cobrir lacunas cruéis para o povo de um País que pretende figurar entre as Nações em desenvolvimento, munido de responsabilidade social e em busca da plena cidadania.

Em São Paulo queda de 19,6%

Feita em parceria com o Ministério do Esporte, a pesquisa constata que entre 2002 e 2003 os gastos dos governos estaduais com o setor esportivo diminuíram 19,6%, caindo de 0,13% das despesas totais para apenas 0,09%.

O baixo investimento se reflete, por exemplo, no reduzido número de equipamentos esportivos de propriedade e/ou sob a gestão dos estados existentes: 228 ao todo, sendo que 12 deles estavam paralisados.

É certo que 58,1% das escolas estaduais tinham ao menos uma instalação esportiva. Só que tal percentual é bem maior do que o encontrado nas escolas municipais (12%).

Nas duas Conferências Estaduais do Esporte, realizadas em 2004 e 2006, em Brasília, nós, do atletismo, batemos insistentemente na tecla de que, no Brasil, faltava uma política efetiva do esporte. E mais: De que o eixo do setor permanecia concentrado nos clubes, quando deveria ser deslocado para as escolas, seguindo exemplo de países de primeiro mundo.

Eixo do esporte deveria ser nas escolas

A própria Presidência da República, entretanto, determinou status de patrimônio do povo para os clubes, daí saindo à idéia da loteria Timemania, no sentido de tirar da insolvência entidades tradicionais como Flamengo, Corinthians, para citar os mais populares.

O jeito foi, então, trabalhar na busca de um meio termo: incrementar a política de clubes e aplicar recursos nos estabelecimentos de ensino.

O descaso para com o desporto enquanto poderosa arma de inserção social, trazendo em seu contexto mais saúde, educação, alimentação e infra-estrutura, não vem de hoje. O abismo foi construído paulatinamente durante todos os governos do Brasil Republicano.

Não será fácil, portanto, chegarmos ao patamar ideal. O trabalho, hercúleo, não é apenas de uma geração, mas de várias.

Infelizmente, o Brasil, que figura entre as 15 maiores economias do mundo, é um País rico de povo pobre. Uma colônia de exploração de uma elite constituída por pouco mais de 3 mil famílias – clãs – que dominam e escravizam pelo menos 96% dos brasileiros.

Em percentuais aproximados, podemos afirmar que 50 milhões de habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. Desse montante, a maioria sabe que não terá o que comer. A outra parte, menor, fica na incerteza se conseguirá comer.

Diante de números tão duros, como fica o desporto?

Variações negativas nos Estados

Voltando à pesquisa, o IBGE destaca as variações nominais negativas nos estados da União. E aí só se salvam, na função desporto e lazer, o Amazonas (30,4% positivos) e o Rio de Janeiro (29,4%, possivelmente graças à realização, em 2007, dos Jogos Pan-Americanos).

São Paulo, considerada a “Locomotiva da Nação”, aparece com um percentual negativo de 23% em termos de investimento no nosso setor. A Bahia, com menos 52,2%. Minas, com decréscimo de 40,8%. E por aí vai o esporte brasileiro rolando escada abaixo...

No já mencionado quesito da inadequação de equipamentos esportivos estaduais, convém destacar o atletismo, modalidade considerada como a “mãe de todos os esportes”, na medida em que lida com os movimentos primitivos do ser humano como andar, correr, saltar, lançar, arremessar.

Na prática do atletismo, o farol – ou sinaleira, como se fala em outros centros urbanos – salta da luz amarela para a vermelha.

Precisamos enfatizar, sem rodeios, de forma clara e contundente a falta absoluta de equipamentos para o atletismo. Fato representado, principalmente, pela ausência de pistas de qualidade para a realização de eventos.

O problema ganha proporção alarmante quando se sabe, através da pesquisa do IBGE, que dentre as modalidades esportivas, selecionadas com base nas maiores freqüências, o atletismo, o handebol, a natação e o vôlei foram às únicas envolvidas em todos os eventos realizados pelos governos estaduais na totalidade dos estados e regiões brasileiras.

A situação do profissional do esporte

Do total de 67.799 pessoas ocupadas nos governos dos estados na atividade de esporte, 46,7% concentravam-se na região Sudeste.

Quanto à composição dos recursos humanos ocupados no esporte por regime de contratação, as médias nacionais foram de 69,3% de estatutários, 9,2% de celetistas, 1,1% de somente comissionados e 20,4% sem vínculo empregatício (29,4% no Sudeste).

Na grande maioria dos estados, o quadro de pessoal sem vínculo empregatício era constituído, especialmente, por profissionais de educação física, que trabalham sob regime de contrato temporário.

Aí cabe a pergunta: A quem interessa que o profissional de educação física, responsável direto pela evolução do desporto nacional, fique sem entidade representativa? E isso apesar da categoria ter assegurado, pelo governo, a condição de diferenciada?

Brasil: longe até da Guatemala

São fatos e fatores que se constituem em obstáculos para que o esporte brasileiro possa, com seu desenvolvimento, colaborar decisivamente para a melhoria da qualidade de vida do povo pobre de um País rico.

Em nossas andanças pelo mundo, exercendo funções inalienáveis ao atletismo brasileiro, vemos países dotados de infra-estrutura inimaginável para o Brasil de dimensão continental.

Em muitas cidades pequenas de países europeus há centros de treinamento para diversas modalidades. E em todas não falta pelo menos uma pista de atletismo sintética, de alta qualidade.

Alguém poderá dizer: Ora, são países de primeiro mundo, onde a verba a ser aplicada no esporte é muito mais expressiva.

Não é bem assim. Na cidade da Guatemala, por exemplo, cujo número de problemas sociais chega a superar os do Brasil, existem quatro pistas completas de atletismo. E olha que não há nenhum guatemalteco qualificado em ranking internacional da modalidade.

Já São Paulo – uma das maiores metrópoles do mundo – contribui com cerca de 70% das seleções nacionais, tem em seus quadros atletas renomados internacionalmente e, por mais incrível que possa parecer, apenas uma pista de atletismo nível A. Isso porque ela foi inteiramente reformada pela iniciativa privada, a BM&F.

Nem a Universidade de São Paulo, a maior do País, tem pista de atletismo sintética. Existe uma lá só no asfalto, há dez anos.

Não vai aqui crítica a A, B, C ou D. Estamos apenas, com a credibilidade de um órgão como o IBGE, constatando a realidade do nosso País, do nosso povo. Uma realidade, aliás, extremamente cruel.

José Antonio Martins Fernandes
Presidente da FPA



No Ibirapuera, crianças entre 10 e 14 anos praticam atletismo.

Treinadores consagrados como Neílton Moura e Anísio Silva tocam o programa “Atletismo em Ação”, dando oportunidade de praticar esporte a crianças carentes.

Apesar de ser considerado um dos maiores técnicos de atletismo em atuação no Brasil, Neílton Moura não se preocupa apenas com a evolução de seus atletas, entre eles, Joana Ribeiro, segunda no ranking brasileiro do salto com vara, sempre se rivalizando com a recordista sul-americana, Fabiana Mürer.

Ele é de opinião que valores devem ser permanentemente garimpados, num serviço minucioso, de paciência, mas necessário para dar oportunidade para que qualquer criança ou adolescente possa praticar esporte e, um dia, chegar ao patamar onde seus ídolos se encontram.

E foi dentro dessa filosofia que Neílton foi assistir, em outubro de 2005, a uma competição de atletismo entre escolas.

Lá, viu muita gente com potencial atlético. Potencial que, normalmente, se perde nos labirintos constituídos pela falta de mecanismos adequados que o Brasil tem para revelar e dar recursos necessários para seus valores se desenvolverem a contento.

“Decidi, então, convidar alguns adolescentes para treinar, às terças e quintas-feiras, no Ibirapuera. E mais de uma dezena compareceu, fato que me motivou muito. Eu percebia que eles tinham muita vontade de ingressar no mundo do atletismo, mas eram carentes, sem dinheiro sequer para a condução. Paguei despesas de ônibus e alimentação do meu próprio bolso”, lembra Neílton.

Os alunos de Neílton passaram a trazer amigos que também queriam treinar. “A coisa foi crescendo e eu passei a contar com a inestimável colaboração da Ana Luiza Garcez, a “Animal”, e de Wagner Príncipe, o “Salsicha”, duas figuras marcantes da família do atletismo, sendo que a “Animal”, inclusive tem um histórico difícil, de quem morou na rua e foi salva pelo esporte”, revela Neílton.

Grandes atletas ajudam fazendo doações

Vale ressaltar que muitos atletas de ponta, que costumam realizar seus treinamentos no Ibirapuera, se engajaram na proposta de Neílton, fazendo doações de tênis, sapatilhas, uniformes.

Veio a São Silvestrinha de 2005. Com ela, mais descobertas do “olheiro” Neílton e novos convites. Veio mais gente. Boa parte gostou e permaneceu treinando e convivendo com atletas e técnicos de grande expressão nacional. Neílton já não podia arcar com as despesas. “Fui, então, falar como o Toninho (José Antonio Martins Fernandes, presidente da FPA), que abraçou a idéia e idealizou uma parceria com a prefeitura de São Paulo, criando o Programa Atletismo em Ação e assegurando infra-estrutura adequada para a evolução dos trabalhos”.

Anísio Silva entra em cena

Tempo para Neílton, todavia, era um artigo de luxo. Chegou a passar alguns alunos para a parte da noite, pois 30 crianças já integravam a escolinha, um aumento de 100% em poucos meses.

“Eu falei, novamente, com o Toninho. Ele me indicou o Anísio Silva, que estava esperando o desfecho de um outro projeto e, portanto, livre. Ele aceitou. E a escolinha ganhou um grande treinador e atleta exemplar, nada menos do que hexacampeão do salto triplo no Troféu Brasil, chegando à marca de 17m29 em 1993, entre tantos outros títulos e conquistas”.

Anísio e Neílton. A dupla estava formada, acompanhando a evolução e analisando o desempenho técnico dos alunos, alguns com bom destaque como a ainda menina Daniele Teixeira, que vem obtendo boas marcas em todas as provas da modalidade (arremesso, lançamentos, velocidade, meio-fundo).

“O nosso objetivo principal é o de permitir a prática do atletismo aos mais carentes, dando-lhes incentivo e condições para escapar do laço da violência e da escalada das drogas que assolam a nossa juventude. Mas, na medida em que um ou outro passe a se destacar, temos o cuidado de não deixar que o jovem desista do esporte, encaixando-o em algum clube com estrutura adequada”, raciocina Anísio.

Tanto Anísio quanto Neílton estão preocupados com a possibilidade de elitização do atletismo brasileiro. Acham que o processo de renovação não vem ocorrendo dentro do satisfatório.

“O eixo do esporte brasileiro está nos clubes e não nas escolas. Esse fato, por si, já privilegia as camadas mais abastadas. Se estivesse nas escolas, o leque de descobertas de novos atletas seria bem maior. Isso, todavia, dependeria de uma revolução vertical da política brasileira para o setor. Fica difícil. Portanto, defendemos uma junção escola e clube”, conclui Anísio.

A escolinha do programa “Esporte em Ação” funciona às terças e quintas-feiras pela manhã. Alguns atletas, poucos, treinam à noite, com o Neílton. Outros nas tardes de quarta-feira, com o Salsicha.

Para quem quiser participar

As inscrições podem ser feitas na Federação Paulista de Atletismo, localizada na rua Joinville, 307, Ibirapuera. O telefone – 3388.4800. Na avaliação inicial não há processo de cortes, sendo observado um período de treinamento. Há Rede Plaza Shopping e a SEJEL-Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo - apóiam a iniciativa.
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