Corridas de Rua na ordem do dia
O teor do NetPress de número 20, no qual tive a oportunidade de abordar os perigos que rondam as corridas de rua mal organizadas e planejadas sem os critérios técnicos devidos, teve grande e positiva repercussão.
Recebi inúmeros telefonemas e e-mails concordando que fatos como os ocorridos na Maratona de Chicago, com centenas de atletas sendo hospitalizados e um vindo a falecer, precisam ser coibidos com a severidade e a rigidez das normas e dos regulamentos propostos pela FPA.
Um, em especial, considerei como grande incentivo e certeza de que a entidade que dirige os destinos do atletismo paulista está no caminho certo.
Veio do grande esportista e amigo Lars Grael, cuja propriedade dispensa maiores comentários.
O assunto só ganhou tal dimensão junto à comunidade esportiva porque preocupa. Afinal, não há competição que seja maior do que a vida e a integridade do ser humano.
Diversas secretarias de Esportes de municípios paulistas parecem ainda não ter compreendido a extensão do problema, autorizando a realização de provas sem a adequada supervisão da FPA.
À base de lobbies, que integram interesses políticos e financeiros, alguns organizadores levam administradores a caírem numa espécie de canto de sereia.
A cantilena é sempre a mesma: a FPA só quer as taxas. Só está preocupada em levar dinheiro.
Ledo engano. Na questão das taxas, a FPA procura agir de maneira conseqüente e criteriosa, sempre de acordo com o grau de participação esportiva dos atletas e da importância da prova.
É bastante comum, inclusive, a FPA isentar de pagamento de taxas entidades assistenciais reconhecidas.
Age assim, também, para com seus filiados. E, a cada corrida, entabula negociações junto aos organizadores, tendo como arma o diálogo, para se chegar à medida do bom senso.
Há eventos em que o lucro obtido é exorbitante, em detrimento à saúde, segurança e assistência ao atleta.
Normalmente desprovidos de boas intenções, certos organizadores se utilizam da questão das taxas para lançar a cizânia entre a plena filosofia do desporto e o açodamento daqueles que só querem levar vantagem, de todo tipo.
Poucos sabem que as taxas são baixas, até porque a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) impõe limitações que são devidamente respeitadas pela FPA.
Isso posto, passo a utilizar este espaço para tratar de um outro assunto de alta relevância e que, justamente por merecer tal qualificação, não pode ultrapassar os limites da ética: a participação de crianças e adolescentes em competições de caráter oficial.
Competitividade em provas de crianças,
algo a ser coibido
O esporte está se cristalizando no Brasil como arma propulsora de cidadania, saúde, educação, horizontes profissionais e, acima de tudo, como mola propulsora de inserção social.
O Brasil é um País rico, pois, ocupa a 14ª colocação entre as maiores economias do mundo, segundo a ONU – Organização das Nações Unidas.
A esmagadora maioria de seu povo, todavia, é pobre, graças à má distribuição de renda, que persiste.
O próprio governo brasileiro avalia que há mais de 30 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza.
A prática desportiva, entretanto, deve estar acima de toda e qualquer diferença social.
Deve ser o denominador comum entre todas as classes, da mais carente a mais abastada, indistintamente.
A FPA, que tenho a honra de presidir, é qualificada como entidade de utilidade pública.
Nessa ótica, além de cuidar da evolução dos atletas de ponta, do esporte de alto nível, ela deve arregaçar as mangas para incentivar a prática da modalidade de forma recreativa e lúdica, privilegiando espaços àqueles que vêem, no esporte, condição de melhoria de qualidade de vida.
A prática desportiva não pode ser elitista, mas popular.
Quando se analisa o papel da FPA dentro dessa filosofia, percebe-se a árdua missão da entidade.
Especialmente através do Instituto Memorial do Salto Triplo, do qual é sócia fundadora, estamos implantando diversos programas de natureza eminentemente social.
Alguns exemplos: Escolinha da Favela de Heliópolis, do Joerg Bruder, do COTP, do Ibirapuera, da Universidade Adventista, entre outros que estão em fase de evolução e com grande participação nos Torneios da FPA.
Com a credibilidade de um corpo técnico especializado, vamos cumprindo o nosso papel social em todas as faixas etárias da população.
Entretanto, estamos observando um verdadeiro boom da modalidade, especialmente no que se refere a Corrida de Rua.
Recentemente, tive a oportunidade de expressar à família do atletismo que, nessas provas de rua, deve haver extrema severidade por parte da organização, priorizando, através de regras claras, a integridade física do atleta.
Agora, estamos diante de um novo problema, que esbarra não apenas na questão física, mas também na psicológica e ética.
Falo de eventos destinados a crianças e adolescentes, que mereceram o expressivo número de cerca de 30 mil inscrições.
Apoiamos tais iniciativas se elas reunirem intenções recreativas e cognitivas, levando os jovens a praticar esporte desde a base.
Infelizmente, não é o que estamos observando, pois à competitividade está sendo reservada a maior porção das atenções, especialmente incentivada por pais que exigem exagerado esforço de crianças de apenas quatro anos de idade.
Concordo que a competitividade faça parte do instinto de todo e qualquer ser humano, seja numa corrida, em tirar as melhores notas da escola, em ser o melhor nisso ou naquilo.
Mas, entidades que se prezam e se caracterizam por iniciativas no campo da responsabilidade social, não podem admitir que a competitividade campeie, podendo levar a criança a sérios distúrbios físicos, psicológicos e de convivência com o próximo.
Apoiamos o marketing esportivo, lógico. Mas dentro de preceitos morais minimamente aceitáveis e não transformando determinado produto em objeto de desejo que supere a prática desportiva saudável.
Em competições do gênero, a FPA aconselha a descaracterizar o sentido competitivo, dando medalhas simbólicas a todos os jovens participantes.
Normalmente indicamos profissionais especializados em recreação para trabalhar junto às crianças, com orientação pedagógica exemplar.
A questão dos minicorredores e de seus pais ambiciosos está em pauta. E todos os segmentos ligados à organização de tais provas têm o dever de buscar uma linguagem unificada de princípios.
Não podemos nos esquecer nunca que o ser humano está acima de toda e qualquer competição. E quando se trata de crianças e adolescentes, então, as atenções devem ser redobradas.
José Antonio Martins Fernandes
Presidente da FPA